Starlight
Aos encontros,
Aos desencontros,
Aos corações finalmente livres,
E aos escritos entoados assim.
Aos encontros,
Aos desencontros,
Aos corações finalmente livres,
E aos escritos entoados assim.
Mahatma Ghandi
Pois é… às vezes tenho maus pensamentos, pronuncio palavras feias, sou inconsequente nas acções, tenho hábitos duvidosos e perco o rumo aos valores… e posto isto, talvez seja melhor não pensar no destino.
Tenho as malas feitas… até já.
Apetece-me contar.
Num ponto da cidade que não importa referir, com a noite a colorir o pano de fundo e num bebericar de vinho do porto à média luz, espreitava o Leãozinho em La Serena enquanto partilhávamos a nossa história.
No outro lado do rio, com o dia a raiar e o frio à espreita, recebo em mãos a mesma música, entoada pela mesma voz, em jeito de presente pela partilha da cumplicidade descoberta.
E o que posso dizer?
Ao amigo de sempre, o meu sorriso por todos os momentos intensos e únicos que vivemos.
À recente amizade, o meu sorriso pela grandeza da alma e sensibilidade única.
É bom sair à rua em dias assim.
‘Um homem via-se ao espelho, todas as manhãs. Um dia, em que olhava para o espelho posto ao contrário, deixou de ver o rosto; pensou que tinha perdido a cabeça e o pescoço e, em pânico, pôs-se à procura deles. Um amigo disse-lhe:
- Por que é que andas à procura da tua cabeça? É tão grande que só a vejo a ela…!
O homem pôs-se então a pensar que a sua cabeça era maior que a dos outros. Sentiu nisso muito orgulho…
Perder a cabeça é perder as ilusões, mas ter orgulho numa cabeça grande é o resultado de uma meditação estúpida e egoísta…’
Não tinha mais de dois anos.
A mãe, zangava-se com a criança que procurava libertar-se do carrinho, gritando-lhe ‘cala-te ou apanhas mais’.
Na esplanada, para além dos evidentes actores, estava eu, boquiaberta e de livro em punho interrompendo a contra gosto a minha leitura, a assistir à cena de terror, não sei muito bem saída de que coração.
‘Se o meu filho me desobedece apanha, esteja onde estiver, era o que mais faltava!’ – dizia a mãe vaidosa.
Tive vontade de pegar no miúdo, fugir com ele para parte incerta e fazê-lo sentir, quiça pela primeira vez, o calor de um abraço apertado e todo o carinho a que não deve ter tido direito.
E assim crescem as crianças, com o sabor amargo da revolta na boca e a frieza no coração. Saberão alguma vez amar?
E enquanto adultos, quantos saberão fazê-lo de peito aberto, sem reservas e sem ‘ses’?
Pois é. Gente egoísta. Há por aí muita.
* Deixo um beso a quem me surpreendeu num dia que normalmente procuro estar sozinha.
Obrigada pelos sorrisos e pelo aconchego que me fizeram sentir. São especiais. E sei que o sabem.
Na contemplação da chuva de estrelas anunciada, a luz da vela iluminava o pátio.
Inebriados pelo fumo dos charutos partilhámos esta dança cantada entre risos.
Quero apenas registar este sentir.
Um brinde aos momentos. Únicos e isolados.
Que para serem eternos acabam exactamente ali, onde começam.
Outro à arte de bem receber e à quentura do olhar saudoso.
E que mágicas são as noites no Alentejo.
Estendo o convite.
De coração.
Até já, que o mar espera o meu sorriso e o regresso à vida citadina já espreita.
Em casa, confortavelmente instalada no sofá, a planear uma sessão de massagens intensiva, rodeada dos comandos da TV, DVD e ar condicionado, cães fofos a latir e cheia de preguiça…
Na praia, a sentir o toque dos raios de sol na pele, a ouvir o mar bravo na areia deserta, acompanhada por todos os livros que me cabem na mala e um velho cancioneiro cheio de dedicatórias…
De noite, com o céu como tecto, a lua como testemunha e o mar ao fundo, a ouvir boa música, a rir e a fazer disparates…
É esta a minha vida.
E mesmo assim sei que me escondo.
Mas agora não me apetece pensar.
Boas férias e divirtam-se, que diz-se por aí que eu ando a fazer o mesmo.
Roubaram-me o telemóvel e a pen.
Rebolei por um lindo lance de escadas.
Um dos meus alunos teve um ataque epiléptico durante a aula. Outra chorou compulsivamente porque a Matemática a frustra.
Bati com o carro.
O telefone toca e toca e toca… Tudo é para ontem.
As horas de descanso de cada dia resumem-se às que passo a dormir.
Vejo-me forçada a dispensar gentilmente os antigos colegas das suas funções por alegada incompetência. Leio nos seus olhos raiva e revolta. Nada posso fazer. O consequente isolamento é inevitável e as pessoas com quem gosto de privar passam a estar à enorme distância de um telefonema.
Os nervos atacam-me a garganta e provocam dores de bradar aos céus…
Férias? Pouco provável… talvez para o fim do ano.
Quero chorar… e nem isso consigo.
É. A vida não pára.
E só os guerreiros sobrevivem.