Sunday, January 28, 2007

Diz a lenda…

Segui o caminho de outrora.

Reconstruía cenas passadas, palavras proferidas, choros, risos, partilha.

Cheguei ansiosa na certeza que traria o meu pertence e nunca mais voltaria.

O cheiro da casa invadiu-me.

O sorriso aberto na recepção enterneceu-me o coração.

Sentei-me e contemplei o espaço.

A disposição dos móveis mudou. Há quadros novos na parede.

O odor é o mesmo, pensava.

A conversa foi longa. Medíamos palavras.

O tempo passava e deixei de saber se me apeteceria voltar.

Ainda perdida nos meus pensamentos oiço ao longe:

‘Quero que saiba que gosto muito de si. Muito mesmo. Ainda me dói a forma como partiu… fiquei sozinho no meio da estrada, numa caminhada que era nossa. Gostava que voltasse. Que ficasse…’

Abandono o meu estado de latência e, contrariando o discurso que havia premeditado, respondi que o sentimento era recíproco e, um dia, talvez um dia…

Sei apenas que se perdeu a magia. O prazer de desfrutar momento.

Diz a lenda que um homem não se banha na mesma água daquele rio duas vezes… porque nem a água nem o homem são os mesmos.

Regressei a casa perturbada.

Acendo a lareira.
Apetece-me Ravel como companhia.

Nunca mais lá voltarei.

É esta a minha única certeza.

 

Posted by nes at 12:39:24 | Permalink | Comments (6)

Sunday, January 21, 2007

‘Explicar um fenómeno já verificado é uma coisa; prever um fenómeno ainda desconhecido e depois verificar a sua existência é outra…’


 

E se o fenómeno for verificado sem que se consiga prever ou explicar?

A morte saiu à rua.

Bateu à porta, vestida de negro…

Permanece a pálida sensação de impotência.

 

 

Posted by nes at 19:45:52 | Permalink | Comments (11)

Sunday, January 14, 2007

Poeta dos Céus

‘Qual o ser inteligente, qual o ser com acesso às emoções inspiradas pela contemplação do belo, que observe os recortes prateados do crescente lunar, fremente no azul, sem experimentar a mais viva e a mais agradável impressão, sem se sentir transportado a essa primeira etapa das viagens celestes e afastado das coisas vulgares da Terra?

Ah! Se os homens soubessem… sim, se soubessem que prazer íntimo e profundo espera quem contempla os céus, cobrir-se-iam de lunetas em vez de se cobrirem de baionetas…’

                                                                                         Camille Flammarion

É incomparável o brilho da contemplação celestial.
Carrega a certeza de uma nova luz: misteriosa e imponente.
Exactamente como eu gosto.

Posted by nes at 23:03:02 | Permalink | Comments (7)

Saturday, January 6, 2007

Grades Ocultas

Numa sessão de formação:


 

- Então e essas festas, foram boas?

- Passaram-se…

- Está tudo bem? Parece triste…

- Não professora, as coisas agora até estão encaminhadas. O meu marido está melhor.

- Ai sim? Mas tem estado doente?

- Não… sabe, ele sempre foi um pouco violento.

- Violento? Como assim?

- Coitado, tem um problema… é muito ciumento e zanga-se comigo quando falo com outros homens… até no emprego.

- Não me diga que…?

- Sim, bate-me de vez em quando e a bebida não ajuda…

- E não apresenta queixa?!

- Claro que não! É pai da minha filha e não sei viver sem ele… e agora está melhor.

- Melhor como?

- Já não me espanca. Nestes últimos tempos só me chama nomes e pouco mais…


 
 

Não consigo descrever a minha expressão naquele momento.

De acordo com o código de ferro de alguns países, mulheres e filhos devem suportar qualquer castigo em nome da obediência…
Concluo que noutros é apenas uma questão de camuflar a verdade.

Posted by nes at 19:54:00 | Permalink | Comments (5)