Diz a lenda…
Segui o caminho de outrora.
Reconstruía cenas passadas, palavras proferidas, choros, risos, partilha.
Cheguei ansiosa na certeza que traria o meu pertence e nunca mais voltaria.
O cheiro da casa invadiu-me.
O sorriso aberto na recepção enterneceu-me o coração.
Sentei-me e contemplei o espaço.
A disposição dos móveis mudou. Há quadros novos na parede.
O odor é o mesmo, pensava.
A conversa foi longa. Medíamos palavras.
O tempo passava e deixei de saber se me apeteceria voltar.
Ainda perdida nos meus pensamentos oiço ao longe:
‘Quero que saiba que gosto muito de si. Muito mesmo. Ainda me dói a forma como partiu… fiquei sozinho no meio da estrada, numa caminhada que era nossa. Gostava que voltasse. Que ficasse…’
Abandono o meu estado de latência e, contrariando o discurso que havia premeditado, respondi que o sentimento era recíproco e, um dia, talvez um dia…
Sei apenas que se perdeu a magia. O prazer de desfrutar momento.
Diz a lenda que um homem não se banha na mesma água daquele rio duas vezes… porque nem a água nem o homem são os mesmos.
Regressei a casa perturbada.
Acendo a lareira.
Apetece-me Ravel como companhia.
Nunca mais lá voltarei.
É esta a minha única certeza.